"Você voltou, então!" - ouvi, aos passos que dei à frente.
E não queria ter voltado, mas me senti obrigado. Afinal de contas, havia passado por ali há não muitos dias. Que estranho seria voltar e, dessa vez, tomar um café com o morador do lugar? Sou visita, quero ser bem recebido. E, dessa vez, não me senti coagido. Fiquei porque quis.
- Por que voltou?
- Acho que você acertou.
- A história dos círculos... acertei? Sabia. Eu te conheço.
Quisera eu não estar errado em nossa primeira conversa, dias atrás, mas ele já me conhecia tanto que eu não podia enganá-lo. Querendo ou não, o que é ele, se não a mim? Um pouco de conversa, resolvi andar. Quarteirões e mais quarteirões andando sozinho, observei tudo que havia. As folhas secas, as lâmpadas de praça queimadas, as ruas com asfalto gasto e cheias de buraco - tudo em total descaso. Até que uma rua em especial me chamou a atenção. Resolvi seguir por ela.
Segui. Pouco iluminado pelas poucas luzes que haviam ali, notei harpias e abutres voando não muito acima da minha cabeça, me rondando. De fato, eram as poucas coisas com vida naquele local. Até que, em um momento, encontrei um local circular, como se fosse uma praça central. Era um lugar dentro de um círculo, e todas as coisas ficavam em volta de um jardim central. No centro desse jardim, havia um banco.
O banco, diferente de muitos outros que encontrei no meio do caminho, era igual ao que estava o outro que encontrei dentro desse mundo. Dessa vez, estava vazio. Tudo estava vazio ali. No que sentei no banco, ouvi:
- É engraçado como você sempre volta.
E era a minha imagem. Com um sorriso torto, amarelo, pediu para que eu me levantasse e o acompanhasse. Assim o fiz.
Ao andar, passei pelas mesmas estátuas que estavam pelo caminho, pelas mesmas folhas secas, pelos mesmos abutres. Andei, andei e andei. Depois de um tempo, depois de reencontrar o lugar em que encontrei a minha imagem por pelo menos duas vezes, parei e perguntei:
- O que está acontecendo?
- Você não sabe?
- Como saberia?
- Você está andando em círculos. Como não notou, se está sempre passando pelo mesmo lugar?
Eu estava andando em círculos. Mesmo em determinada andança, sempre acabava passando pelo mesmo lugar pelo qual comecei. Eu havia enlouquecido. Me perdido em mim mesmo. Eu continuava a mesma coisa.
Recebi uma calada resposta em forma de sorriso, como se eu finalmente tivesse entendido o ponto. Sentei na calçada em frente à praça principal e, eu não havia reparado, mas uma árvore permanecia viva. Não conseguia saber o que significava, àquela altura eu já estava enlouquecido nas minhas andanças circulares. E sair dali seria como seguir a tangente que não me levaria a lugar algum, mas me traria de volta ao círculo.
Até que encontrei uma caverna, depois de horas andando para outro lugar. Dela saiu uma imagem à minha semelhança, mas diferente do homem que me acompanhava. Gentilmente, ouvi uma pergunta sincera:
- Quanto tempo vou ficar aqui? Por que esqueceu tudo o que fiz por você?
(silêncio pairou, mas continuou)
- Foi tão difícil te ensinar, e você conseguiu abrir mão. Se envolveu na tangente e, pior ainda, entrou no círculo. Agora, você que nunca foi tão bom em geometria, como vai lembrar a saída? Como vou lhe ensinar o caminho de saída deste grande wormhole que é isso aqui? Você não sabe, você não sabe. Porque você não consegue aprender.
Em silêncio, soltei um baixo pedido de desculpas e, pacientemente, aguardei o que mais sairia da caverna para me encontrar. E continuo assim.
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