E as flores murcharam.
A luz se apagou
E, sem entender o que se passava
Também não entendeu por que acordara
E se murcharam as flores
Teriam murchado seus amores?
"Ah", queixou-se
Não quisera mais desamores
E tentou dançar
Encaixar a poesia na métrica certa
E não conseguira nada
Ah, seria a vida tão desalmada?
E queixou-se aos ventos
"Se não sei o que faço,
por que faço? E devo fazer?"
"Não sei", soprou o vento, não sei
Procurei o abraço de uma boa garrafa de conhaque
Nem ela me abraçou
O vento frio, ah, se dispôs não obstante
Como um velho amigo, uma calorosa amante
A solidão destoou
Naquela noite em que cada flor murchou
Disse, então: "perdi meu amor,
perdi toda a cor. Me sobrou dissabor".
Mas mentira para si mesmo.
Está tudo ali, sobrevivente
"Por que é dada a dor
a aquele que mais a sente?"
E murmurou: "se intenso sou,
por que ninguém me amou?
Se gosto de me doar,
sem nem ver se sinto dor?"
"E não digo que ninguém me deu amor.
Digo, em prantos, que, como sou,
ninguém aceitou. Então, pergunto-me,
sou tão ruim? Sou mesmo tal horror?"
Perguntei ao copo de uísque, que não mais fez
do que me embebedar ainda mais
numa noite de domingo
sozinho, calado, sozinho.
A noite terminara
E, ainda sem resposta
Tentei me entender, te entender, aos outros entender
A tudo compreender
E não isentei-me de culpa
O vento soprou-me: "ela também é sua"
Assim como a lua
assim como a rua
E ainda quis lutar
Porque só sabe amar
E não quer saber do desamor
E não quer saber do dissabor
E caiu no chão, entorpecido
por sua mente, por sua dor
por si mesmo
por cada erro cometido
E as flores murcharam.
A luz se apagou
E, sem entender o que se passava
Também não entendeu por que acordara.
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