Sunday, June 30, 2013

The Maze Into The Old Town

"Você voltou, então!" - ouvi, aos passos que dei à frente.

E não queria ter voltado, mas me senti obrigado. Afinal de contas, havia passado por ali há não muitos dias. Que estranho seria voltar e, dessa vez, tomar um café com o morador do lugar? Sou visita, quero ser bem recebido. E, dessa vez, não me senti coagido. Fiquei porque quis.

- Por que voltou?
- Acho que você acertou.
- A história dos círculos... acertei? Sabia. Eu te conheço.

Quisera eu não estar errado em nossa primeira conversa, dias atrás, mas ele já me conhecia tanto que eu não podia enganá-lo. Querendo ou não, o que é ele, se não a mim? Um pouco de conversa, resolvi andar. Quarteirões e mais quarteirões andando sozinho, observei tudo que havia. As folhas secas, as lâmpadas de praça queimadas, as ruas com asfalto gasto e cheias de buraco - tudo em total descaso. Até que uma rua em especial me chamou a atenção. Resolvi seguir por ela.

Segui. Pouco iluminado pelas poucas luzes que haviam ali, notei harpias e abutres voando não muito acima da minha cabeça, me rondando. De fato, eram as poucas coisas com vida naquele local. Até que, em um momento, encontrei um local circular, como se fosse uma praça central. Era um lugar dentro de um círculo, e todas as coisas ficavam em volta de um jardim central. No centro desse jardim, havia um banco.

O banco, diferente de muitos outros que encontrei no meio do caminho, era igual ao que estava o outro que encontrei dentro desse mundo. Dessa vez, estava vazio. Tudo estava vazio ali. No que sentei no banco, ouvi:

- É engraçado como você sempre volta.

E era a minha imagem. Com um sorriso torto, amarelo, pediu para que eu me levantasse e o acompanhasse. Assim o fiz.

Ao andar, passei pelas mesmas estátuas que estavam pelo caminho, pelas mesmas folhas secas, pelos mesmos abutres. Andei, andei e andei. Depois de um tempo, depois de reencontrar o lugar em que encontrei a minha imagem por pelo menos duas vezes, parei e perguntei:

- O que está acontecendo?
- Você não sabe?
- Como saberia?
- Você está andando em círculos. Como não notou, se está sempre passando pelo mesmo lugar?

Eu estava andando em círculos. Mesmo em determinada andança, sempre acabava passando pelo mesmo lugar pelo qual comecei. Eu havia enlouquecido. Me perdido em mim mesmo. Eu continuava a mesma coisa.

Recebi uma calada resposta em forma de sorriso, como se eu finalmente tivesse entendido o ponto. Sentei na calçada em frente à praça principal e, eu não havia reparado, mas uma árvore permanecia viva. Não conseguia saber o que significava, àquela altura eu já estava enlouquecido nas minhas andanças circulares. E sair dali seria como seguir a tangente que não me levaria a lugar algum, mas me traria de volta ao círculo.

Até que encontrei uma caverna, depois de horas andando para outro lugar. Dela saiu uma imagem à minha semelhança, mas diferente do homem que me acompanhava. Gentilmente, ouvi uma pergunta sincera:

- Quanto tempo vou ficar aqui? Por que esqueceu tudo o que fiz por você?
(silêncio pairou, mas continuou)
- Foi tão difícil te ensinar, e você conseguiu abrir mão. Se envolveu na tangente e, pior ainda, entrou no círculo. Agora, você que nunca foi tão bom em geometria, como vai lembrar a saída? Como vou lhe ensinar o caminho de saída deste grande wormhole que é isso aqui? Você não sabe, você não sabe. Porque você não consegue aprender.

Em silêncio, soltei um baixo pedido de desculpas e, pacientemente, aguardei o que mais sairia da caverna para me encontrar. E continuo assim.

Thursday, June 27, 2013

The Tree of the Hurt Man

E me doeu.

Dessa vez não vou ficar só na superfície. Já me doeu saber muita coisa, e isso é outra coisa que dói. Me dói não ser o que muda o seu dia, me dói não ser o que te ansia a ver. Me dói saber que, no fundo, não faço diferença alguma.

Não dá pra negar, nem você sabe se me ama. Como é que a gente não sabe se ama alguém ou não? É como levar um tiro - a gente sente. Eu levei um tiro seu, e eu sinto, e me dói tanto quanto o projétil. E doía bem, a dor do amor é gostosa. Passa a ser um ardor na alma, a dor de estar morrendo, quando sentimos que não é recíproco e, se é, é porque algo está errado.

E está errado. Não é normal o lapso de haver outro encanto se há amor de verdade. Sendo amor de verdade, um outro encanto deriva daquilo que está à deriva, e você não tem encanto por mim.

E não sou incompreensivo, não. Mesmo em meu dia mais profundo dentro do poço, consegui sorrir e me permitir minutinhos de bem estar quando quem eu amava estava comigo. Com você, mesmo, eu já me permiti. Já sorri em dias que isso era improvável apenas por duas palavras de carinho que você me dedicara.

É claro pra mim: se tem algo que você sente por mim, talvez seja raiva. Não sei por qual motivo, e não sei de verdade. Sempre fui puro em tudo que tentei fazer por você, sempre tentei dar o melhor de mim, até mesmo numa simples escolha de flores para um buquê para te dar. Mas isso nunca foi suficiente.

Nunca foi suficiente para você querer me dar um bom dia às duas horas da tarde. É, coisa boba, mas é verdade. Nunca fui muito. E isso não se trata de acusação por coisas não feitas. Falo de essência, falo de coisas que não estão nas minhas mãos e muito menos nas suas.

Entendo que sempre há os mais contidos, mas se algo é verdadeiro, isso foge de nossas mãos, como fugiu de minhas mãos o meu controle na noite de ontem, em que não conseguia parar de te beijar mesmo com você embaixo da estante.

Me entristeço por não ser algo que você vê com bons olhos, algo que faça você amolecer quando eu sorrio, porque você não sabe o quanto eu amoleço toda vez que você fala qualquer coisa bonita pra mim, quanto aquilo que você disse sobre o que meu quarto representava pra você.

É uma pena que eu goste tanto de você e você não goste de mim. E eu não falo de amor nessa parte do texto, eu falo sobre sentir algo positivo pela pessoa. O sentimento base.

Se tudo o que eu disse aqui estiver errado, por favor, me diga, me prove. Não consigo mais agonizar. Não de novo.

Entwined In My Deepest Place

Tem certas coisas nessa vida que eu nunca imagino como acontecem sem eu perceber. Sem que eu percebesse, você mexeu comigo de forma que eu não acreditaria que pudesse acontecer. Tão simples e tão rápido, passei a viver a sua vida sem que eu ao menos pudesse pensar em fazer isso. E sei que você também não pensou.

Aquele dia em que nos encontramos naquela tarde qualquer, em que não tínhamos o que fazer, enxerguei em seus olhos que eu era importante pra você. Cada coisa boba que você me dizia, eu sabia que você não falava para qualquer um, e você só falava para mim para me fazer rir. E conseguia. Conseguia como ninguém.

Pouco a pouco, no que nos víamos mais, naturalmente nos aproximamos e o fascínio crescia de forma mútua até nos vermos ou nos falarmos quase todos os dias, e sentíamos falta da presença do outro. Mal sabia eu o que viraria.

Aquele dia que fomos no cinema, eu tremia por dentro. Tremia desde antes de você chegar e tremi até ir embora, e sabia que com você era assim também. Sabia que você estava inquieta, a ponto de querer comentar cada cena do filme comigo, apenas para que não ficássemos calados. Vi, também, sua mão trêmula e a tensão em seu rosto enquanto tentava segurar a minha mão largada. Aquele cinema sofreu com um terremoto que só nós dois sentimos.

Ao que você precisou ir embora, seu abraço de despedida soou como o de um adeus, como se nunca mais fossemos nos ver, mesmo sabendo que nos veríamos em menos de, não sei, uns três dias. Sua respiração em meu cabelo, que se confundia com os seus, dizia mais do que qualquer palavra. Quando você foi embora, congelei quando você segurou a minha mão e disse o clássico "se cuida", que não poderia ser mais verdadeiro e preocupado. E me cuidei, sim, ao ir embora com o maior sorriso que eu poderia dar durante todo o percurso até a minha casa, com aquela sensação de tristeza por você ter ido para a sua casa.

Se tremi no dia do cinema, devastei uma cidade com o meu tremor quando você bateu à minha porta. Te convidei para entrar e, em não muito tempo, já estávamos em minha cama. No momento em que estávamos deitados e você pulou em cima de mim na velocidade de um relâmpago, olhei cada detalhe seu, e seu coração não batia no ritmo de uma música do Chico Buarque, não, seu coração me soava perfeitamente como uma música do Flux Pavillion, que, por sinal, me agrada muito mais. E me apaixonei pelo momento em que você começou a me atacar com trilhões de beijos no rosto, logo atacando meu pescoço e o resto do meu corpo - e me rendi: você era a perfeita personificação do amor. Apaixonado e extasiado, saí do controle e me afoguei em você, em seu corpo, em sua alma. Estava como sempre quis estar, fui o que eu sempre quis ser.

A essa altura, já estava apaixonado, sem ter como ser diferente. Guardava seu olhar, seu cabelo, seu toque, sua voz doce, tudo o que dizia respeito a você, em minha alma.

Certo dia, num desses que o mundo nos enche a cabeça até quase transbordarmos, resolvi dormir mais cedo, lá pelas nove horas da noite. Durante a madrugada, algo por volta de 3:45, acordei assustado com o barulho do celular, e mais assustado ainda ao ler seu nome no visor. Atendi, com a maior voz de sono, e derreti ao ouvir seus dizeres tão simples:

- Desculpa ter te ligado uma hora dessas. Eu queria falar um pouquinho com você.

Com o maior carinho do mundo, não vi o menor problema em ter visto meu sono acordar muitas horas antes do que o habitual. Me valia o mundo inteiro ter sido acordado àquela hora para alguém poder ouvir a minha voz, para poder me falar coisas tão bobas quanto as daquele dia em que nos encontramos por acaso. Depois que desligamos, não consegui voltar a dormir. Não queria desperdiçar a felicidade. Foi como naquela música daquela banda que tanto gosto, o Ira!, e vou tomar a liberdade de mudar uma palavra para adequar à situação: Você me ligou naquela noite vazia e me valeu o dia.

E é sempre assim. Eu nunca quero dormir por causa da maravilhosa sensação que você sempre me proporciona. Minha vida vale muito mais desde que lhe conheci. Minha mente fantasia sempre que você preenche minhas tardes vazias. Você é como um jardim de flores coloridas - porque é minha combinação favorita de cores de flor -, que cuido com todo o esmero que meu coração pode condicionar às minhas mãos.

E se um dia você for embora, serei vazio. Serei cinza. Serei o ninguém que sempre fui antes de você. Que isso não sirva de prisão para caso um dia você queira ir embora; não, que isso sirva para que você se apaixonar mais e mostrar à sua mente que seu lugar é aqui, bem entrelaçada ao meu coração, bem encaixada em meus braços. Bem encaixada em minha vida.




Tuesday, June 25, 2013

Standing In The Middle

Sometimes I feel it's like nothing that I ever do is ever good enough, for real
Like I should stop and go back to L.A
Back away where I know I won't be seen 
And nobody's gonna critique the music that I make 
And mistake me for some fucking kid with a backpack 
Rapping on a track just to make a buck 
For a mix-tape that sucks 
And dee-jays that don't get it 
But I been down that road and I know 
People don't wanna go where I might go.

Middle Point of the Circle

Nada é tão velho quanto a vontade de ir embora. Mais uma vez, em outro lugar, a história se repete. Não sei a quem eu poderia deixar a culpa se não a mim mesmo. Apesar de saber que tal coisa é possível, não entra em minha cabeça que em todos os casos a culpa não foi minha.

Não me dói ter essa noção, mas me dói ver a vontade comum de quererem ir embora.

Sendo o mais verdadeiro possível, não consigo enxergar em qual ponto eu erro. E não que eu esteja dizendo que não erro, mas que realmente não sei, mesmo. Passo horas e horas, dias e dias da minha vida tentando solucionar essa questão que grudou em minha mente e nunca me vem a mínima resposta. E, se pergunto, a resposta é sempre a mesma: "você não erra em nada".

Mas, como não? O que explica todo mundo saber que vai se sentir melhor se for embora? O que explica todo mundo ser realmente mais feliz depois que vai?

Por isso, então, insisto: o que eu faço de errado?

Seria, então, o caso de eu sempre fazer muito por quem provavelmente nunca se apaixonou, fazendo com que a pessoa insista em dizer que me ama, na tentativa de fazer com que isso seja verdade?

Tenho que admitir: minhas boas intenções e os amores que sempre dediquei nunca serviram de alguma coisa, nunca serviram para fazer a pessoa saber que vai ser melhor estar comigo.

Me dói muito, e como dói, saber que nunca esteve na cabeça de ninguém que estar comigo seria a melhor opção, a coisa mais racional a se fazer.

Há tempos insisto no "efeito escada": a pessoa passa por mim para chegar no nível mais alto. E não, não considero isso como tirar proveito de mim, porque, não, não é nada disso. Simplesmente parece que todos alcançam uma vida melhor depois de mim.

Mas, e quanto a mim?

Quando é que vou realmente ser o que a pessoa quer perto dela para que a vida dela seja melhor?

E, sabe, isso já virou lugar-comum para mim. Como se, no fundo, eu aceitasse a derrota.

Sou sempre o que a pessoa não sabe se quer, ou, então, o que a pessoa não quer.

Sou a eterna interrogação do mundo.

If you're walking out of me, I'm walking after you.

Unforgettable Old Town

E não me imaginava refazendo tal visita.

Adentrei aquele lugar como alguém entra em um porão depois de anos. Munido de uma lanterna, apenas olhei em volta enquanto caminhava. O lugar assustava, o vento pouco soprava e as folhas das árvores se moviam lentamente. Enquanto caminhava sozinho, ouvi passos perto de mim. Ao olhar para o lado, apontei a lanterna. Vi um banco de praça: havia outro sentado ali.

Ao me aproximar, notei um semblante triste, com o olhar voltado para mim. Outro ser solitário ali, naquele lugar com apenas uma fonte de iluminação que estava em minhas mãos. Então o perguntei o que fazia por lá, e ouvi: "assim como você, eu não sei".

Assustado, resolvi trazê-lo para continuar andando comigo. Conforme seguia, mais o local parecia escuro. Perguntei a quem me acompanhava se havia alguma fonte de luz que pudesse iluminar o lugar. Recebi como resposta: "como você pode ter esquecido?" - ao som de uma voz baixa, triste.

Ao local finalmente ser iluminado, encontrei um lugar em ruínas - flores pisadas, árvores secas. Seria, no caso, o lugar mais morto que eu poderia conhecer. E, realmente, eu conhecia o lugar.

Ao menor sinal de almejar fugir dali, a pessoa solitária do banco da praça resolveu me segurar. Toda a força que eu fazia parecia mera perda de tempo, mero gasto de energia, até que caí no chão.

No que decidi manter a calma, sentei no mesmo banco de praça que havia encontrado a pessoa solitária. Ela veio até mim e, de forma curiosa, me perguntou: "por que voltou aqui?" - dessa vez, com os olhos não tão tristes. E não soube responder.

E então ouvi:

- Você está caminhando em círculos, não é verdade? Não é verdade que, mesmo nesta determinada andança, você acaba passando pelo mesmo lugar de onde começou? Você enlouqueceu. Eu sei, você se perdeu em você de novo. E eu sei, sempre soube, você continua a mesma coisa.

Calado, consegui apenas dar um breve olhar.

Não muito depois, uma tempestade começou e uma flor surgiu, como algo mágico, muito além do senso das coisas naturais. Levantei-me e, ignorando tais palavras que acabara de ouvir, peguei a flor e decidi ir embora.

Antes de abandonar aquele lugar, resolvi responder às palavras que ouvira:

- Me desculpe. Eu não deveria ter vindo aqui. Não deveria ter vindo colocar meus pés aqui. Você é a antiga imagem de mim, eu não precisava ter lhe atormentado.

Fui embora.

Confuso, encostei na porta fechada do mundo que eu havia visitado.

E me entendia bem depois de encontrar meu velho amigo, o velho eu.

Só não entendia por que, mais uma vez, eu havia aberto aquela porta e dado passos para dentro dali.