Já faz tempo que me engulo, mas não posso suportar tamanha chuva de ódio que cai sobre mim.
Sensação de impotência, de agonizar no chão, com a cabeça no meio-fio. Passam carros, passam pessoas, ninguém me vê, nem ao mesmo quem eu espero que venha me socorrer. Estou sozinho com as minhas palavras, e não há nada que eu possa fazer, pois não tenho voz, nem mesmo tive um dia. E me pergunto: será que terei?
Difícil dizer, ao passo que esquenta o chão e queima minha pele. Não consigo levantar, pois não sinto minhas pernas. Não grito por socorro, não me movo por não poder. Agonizo com medo de não ser visto, com medo de não ser ninguém. E me dói, pois nunca faltei com socorro. Não falto com nada, e se falto, corro mais do que minhas pernas para corrigir. E o som do silêncio sufoca, sinto mãos no meu pescoço e monstros na minha garganta. Queima meu peito e dilacera meus olhos. Nem mesmo tenho capacidade de chorar. Minha única capacidade é a de tentar olhar para longe de mim.
Como deveria me sentir, se rastejo em torno de um mundo arruinado? O ódio é puro, não há mais ajuda, não há mais calmaria, e me escondo atrás de um muro intransponível que esconde toda região de fundo numa escuridão não-iluminável. Sonho com os olhos claros da calmaria, mas sou derrubado por um mar em fúria, que me arrasta da mesma forma que uma cidade inteira é levada.
Enquanto fico no chão, sem poder me libertar do horror que são tais palavras em mim, me entorpeço apagando de mim quem eu poderia ser, se não houvesse tanta falta de cuidado, tanta falta de emoção num mundo tão escuro. Devastaram em mim cada pedaço do que construí, e com os destroços, faço a proteção para tal nuvem de poeira, cada vez maior, cada vez mais assustadora.
E não me faltam palavras. Mas me falta a ponte segura para tirá-las de mim.
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